segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Chutar a bola

Vem sem anúncio. Você está observando um mundo ao seu redor, cores e sons, quando, virando bruscamente seu pescoço, surge aquela redonda oferta vindo em sua direção: uma bola rolando.

Geralmente há atrás dela uma dupla, um trio, um grupo de outras crianças, algumas com pais ou irmãos mais velhos. Assistem com pouca preocupação ao caminho incerto da bola, pois sabem que a esfera, no Brasil, é (literal e metaforicamente) a aliança mais rápida e eficaz entre dois estranhos. Tão breve ela foi, ela voltará. Pode ser com algum toque de classe, alguma graça de quem exprime num instante o sonho reprimido de ser jogador de futebol, ou o contrário, o desembaraço motor da dona de casa que vê na bola a vilã mítica de sua paz, e por isso, nunca ousou mexer com seus encantos.

Você, um menino já em forma, sente a cada volta completa o ímpeto incontrolável de chutar aquela bola o mais forte possível. Toda a raiva sangrenta de seus ancestrais, desde o hominídeo que primeiro devorou o mamute, todos vão se apoderando de si à medida que a bola se aproxima da sua chuteira nova.

Você já venceu a gravidade, já passou pelos primeiros chutes, vencidos com o emprego de toda a força que tem seu corpinho e aos gritos do papai - aquele chute já não te empurraria para trás. Ainda mais porque se aproxima uma bola de leite, uma bola de queimada, uma bola de vôlei, quem sabe... Já não há calculo necessário para dimensionar a força com que a bola vai sair do seu pé. 

O chute é inevitável. Aguda-se a potência. Prenuncia-se a explosão, a virilidade, a violência, o tesão. A raiva do mundo concentrada em quatro terços de pi raio ao cubo. A raiva de ser, a raiva de querer-ser, a raiva de não ser.

Não. Você não pode chutar aquela bola. Ela pode machucar alguém. Ela pode cair naquele barranco lá. Ela pode furar. Ela pode não ser de chutar. E, afinal, ela não é sua. Você não trouxe sua bola porque não quis. 

Você gentilmente recolhe a bola alheia, encurvando-se para não dominá-la com os pés. Você arremesa-a parcimoniosamente ao menino mais novo de olhos ansiosos. Ela pinga, uma, duas vezes, e é agarrada pelas mãos miúdas. "Agradece, filho". "Brigado"

Somado da vida miserável às frustrações e burocracias, subitamente no teto preto do seu olho raivoso irrompe voraz o arrependimento: você deveria ter chutado aquela bola 


O pacto

Passado mais de um semestre em convivência diária com os jovens do ensino médio, algo mais sutil que a desconcentração das mentes gigabytes ou a apatia dos corações bluetooth percebi se espreitando entre alguns. O amor entre os meninos vive em breves lapsos, sigilo tácito e febril.

Entre lutas gratuitas e carinhos demorados, lá está ele. Esses meninos olham pros seus corpos definidos, sentem os pelos desabrocharem dos confins de seu corpo e falam afasicamente de bolas e mulheres, são esses que sentem o ímpeto insaciável de examinar com as próprias mãos um corpo como o seu.

Já estão acostumados com a madureza dos seus traços, e as curvas femininas, se poucas vezes podem ser exploradas com gentileza e paciência, burbulham no imaginário coletivo ainda num protótipo imaculado e cru de formas saturadas e ereções programadas.

Muito mais rica é a confusão de afeto, violência, virilidade, e, é claro, a paixão egressa do corpo de um amigo. Não há nada mais belo que o amor escondido nos gestos virulentos, e nada mais espalhafatoso que os pequenos toques despropositados em uma pele macia e suculenta.

No carnaval do colégio, a sala estava repleta de abadás e lépidos peitorais, alguns até alargavam-no para dar vazão ao busto e aos mamilos. Certa hora, quando eu estava tirando dúvidas de um grupo, percebi entre dois meninos que mal se olhavam uma mão ossuda afinando um fino fiapo que futilmente se desprendia na roupa do amigo. Não era necessária a cortina de fumaça dos gestos grandes e corpulentos; nos milímetros da massagem repetida e amorosa do fino fiapo explodia um minúsculo buraco-negro, uma jorrada de estrelas cadentes em eterna expansão. Era o amor possível naquele espaço camuflado da realidade.

Todas são as oportunidades para saborear um gosto. Os cumprimentos que se prolongam até meados do primeiro assunto, os abraços e empurrões melados de suor e grama, os piparotes e beliscões afetuosos de quem quer esconder o amor na blague. 

Ou às vezes não há nada. É apenas uma aula. E nada se vê na lousa e na frente dela porque na frente de tudo há um ombro largo, uma camisa de tecido definido pelo músculo pulsante e cachos castanho-escuros que cobrem parte do pescoço. A jugular. 

Primeiro, joga-se uma bolinha de papel amassada dentro da camiseta, simbolizando por este objeto em missão o desejo místico de sê-lo. Presumindo inconscientemente os fins ocultos da piada, este corpo da frente se vira para trás brevemente e exibe um meio sorriso leite de prazer e consentimento. O corpo de trás entende que pode então tocar o outro gratuitamente, mas a distância imposta pela carteira impede-o. Usa-se então uma régua, qualquer que seja, para alcançar a nuca arrepiada do corpo da frente e lá fincar a superfície lateral, em tenso suspense. Por alguns instantes, o largo objeto enrijecido luta para não se desgarrar daquele pedaço de pele, de terra, constrói seu próprio limbo de vida em corda bamba prestes a romper.

Acometido pela paixão de Orfeu, o corpo da frente se vira. A régua cai, a lousa se restitui e o amor volta correndo assustado para a toca de sua hibernação.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Paralelos

2013


Era a primeira vez que pisava numa escola diferente na minha vida. Pelo menos era por um dia só, ia fazer o teste de inglês e ir embora. Tinha gente da minha idade, gente mais velha, gente sozinha, gente grande. Fiz a prova escrita na sala e esperei comendo o lanche no lado de dentro, como meu pai me recomendara. 

Me chamaram pra prova oral, deu vergonha de falarem meu sobrenome alto. Quando entrei tinha uma menina bonita ao lado. Bonita, minha idade, era morena e mexia no celular. Barulho da porta, celular no bolso. Conversamos sobre o aquecimento global, ela falava inglês bem, eu esqueci como falava fábrica - factory, factory, factory! Nós, a menina bonita e eu, falando em inglês naquela escola colorida da Zona Sul, aos 13 anos, sobre aquecimento global. Warm.

As avaliadoras nos liberaram e abriram a porta. Estávamos no segundo, os dois teriam que ir pra saída no térreo... O que eu falo? Não vou falar. Vou ver se ela também gostou de mim. Se não falar nada, tá nervosa, como eu. E se puxar muito papo, é também porque gostou de mim. Nós dois em cima, thank you, escada caracol, caracol.

- "Acho que foi de boa, né?" - Ela disse.

- "Sim, sim." - Concordei

- "Tchau!"

Ela desceu as escadas à frente. Diminuí meus passos para descer atrás, fingindo que tomava cuidado para não tropeçar. Enquanto a via sair sozinha, seu braço puxando o celular no bolso, meu pai me abraçou e perguntou se eu tinha ido bem:

- "Sim" - querendo chutar sua canela e chorar.

2022

Não imaginava que com mais de 20 anos me depararia num verdade e desafio. Depois do karaokê, alguns de nós fomos para a casa da amiga da minha amiga. Tinha algo de Laranja Mecânica, se os alvos da gangue de Alexander fossem os nouveaux riches do Morumbi. Tão logo se quebrou o gelo, as línguas sanfonavam para fora das bocas e as peças de roupas tombavam vorazes. Mexia um pouco no celular pra não parecer afoito em entrar nos desafios, de canto de olho foi então que notei: deveria se beijar por no máximo 20 segundos, mas os casais tinham dificuldade de desgrudar pele com pele e estendiam por uns 30, 40 segundos. 

Fui beijar a minha amiga, ela estava de olhos fechados, o que me pareceu um bom sinal. O funk na tevê se misturava com a voz feminina, que proclamava: treze, catorze, quinze... Calculei: se pararmos nos 20, ela não quer deixar claro que gostou. Se formos até os 30, 40, é também porque gostou, oras... Vinte um, vinte dois, paramos. Uma piada qualquer e alguém bramou:

- Próximo, próximo.

Quando já eram umas 6 da manhã a irritação dos meus pais desbancou a expectativa por qualquer experiência atestadamente excitante. O vento anunciava baixinho na janela que estava pronto para secar o tesão derretido no tapete. Chamei um Uber, dei um selinho em minha amiga e desci devagar em direção à porta, desviando do casal de amigos que no degrau escuro já não pensava em regras.

- Boa noite, amigo.

- Opa, bom dia já!

- Ah, é, verdade... É que tá frio ainda né?

 

 

Camiseta listrada

 Um dia que não aconteceu nada, fiquei em casa brincando, nada de extraordnário. Me lembro sempre desse dia - o dia que não aconteceu nada e eu estava vestindo uma camiseta listrada.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Matitã

Um certo menino na escola, a mais antiga, se chamava Matitã. Na verdade, esse não era seu nome, era um dos apelidos. O outro era alzhimer, a gente começou a chamar ele assim porque ele sempre se esquecia da regra do jogo. Era engraçado chamar ele assim porque ele ficava bravo, e quando ele ficava bravo era muito bravo, de um jeito que até assustava. Devia ser também porque ele era mais velho, 1 ano, e porque era meio diferente da gente, de parecer assim. Me contaram uma vez que a mãe dele trabalhava na escola, nunca reparei nela, das professoras tinha nenhuma que parecesse. 

Na queimada não podia queimar na primeira vez que era morto. Quando o Matitã era morto pela gente, ele nunca se lembrava e jogava a bola forte, mirando nossos pés ou braços. Toda vez! Dava um ódio assim. Por isso que a gente ria e fazia graça. Depois batia o sinal no intervalo e a gente voltava pra aula querendo brincar mais.

Quando foi da apresentação de poemas que os alunos iam recitar para os pais, teve uma semana de ensaio que a gente assistia a todas as séries. A minha ia recitar um poema em inglês, um assim de revolta. A gente, no final, jogava umas carteiras no chão e saía do palco bem rebelde, dava uma impressão legal. O poema da série do Matitã era em português, eu sei porque começava falando alguma coisa de camburão e navio negreiro. Era mais fácil, mas a gente queria ver se ele ia esquecer ou ficar nervoso na frente de todo mundo. O Matitã diziam ser mais burro, que pegava muita recuperação. Ele estava mais atrás no palco, ouvindo os colegas e cambaleando em minicírculos, rememorando baixinho sua parte. Quando começou a falar, foi igual a todo mundo, meio sem graça. Eu parei de prestar atenção. Foi quando todo mundo começou a rir, alguma coisa diferente. O que foi? O que foi?

- Ele falou fiofó!

Droga, eu tinha perdido. No ensaio seguinte, quando ele começou a recitar, não parei de prestar atenção, e nem meus colegas, que especulavam quando ia ser a parte do fiofó. A expectativa foi acumulando ao redor, mas eu não sabia quando, estava ficando tenso com medo de perder de novo. 

"- É preciso jogar o ferro fora."

 Agora eu tinha entendido, quando ele falava ferro fora a gente ouvia fiofó. Não achei tão parecido, mas guardei na memória a parte do poema para não perder mais nos ensaios seguintes a hora de rir.

No dia das apresentações, tinha muitos pais e mães. Fiquei tão nervoso que nem lembrei de assistir ao poema do Matitã, pra ver se iam rir. Meus pais me filmaram, nem quis assistir porque tive vergonha. Mas acho que deu tudo certo, quando jogamos as carteiras no chão e saímos imponentes, os pais bateram muita palma. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Teleton

 A primeira vez que ouvi falar em Teleton foi numa conversa dos meus pais no restaurante. Me deu vontade de ver. Achei muito curioso tudo aquilo: era um programa tipo o Faustão só que iam muitos artistas e o objetivo era arrecadar dinheiro pra uma instituição que cuidava de crianças deficientes. Teve uma vez que eu tinha feito natação com meu pai, um menino sem braço e o pai dele, tinha sido muito estranho. Eu gostei era do placarzinho na bancada que mostrava quanto o público já tinha doado. 25 milhões, era essa a meta. O número crescia muito rápido e já parecia ser muito grande, mas com certeza estava longe dos 25 milhões. Apenas com este número fixo na cabeça, aguentei mais uma meia hora e adormeci no sofá. De manhã, fui colocar no Bom dia e Companhia e qual não foi a minha surpresa ao ver que ainda estava tendo o Teleton (e era ao vivo!) Voltei à minha torcida pelo 25, ainda longe longe. Nem via mais as crianças de uniforme ao redor do palco, só contava com os olhos os números subindo sem parar. Minha mãe explicou no almoço que o programa não parava, começava sexta à noite e terminava sábado de noite. "Que nem o shabat", talvez eu tenha pensado. Fiquei feliz que ainda ia ter muito programa, mas meio preocupado quando eu voltei do banho e nem tinha um 2 na primeira casinha. Meu pai, que entendia muito dessas coisas, tranquilizou:

- "Eles deixam as doações de banco pro final."

Fiquei aliviado, apesar de não ter uma ideia clara do que era um banco. Foi então que entrou do nada o Sílvio Santos, ele eu conhecia. Chegou sem cerimônias, discreto como quem curte mais a surpresa do que os aplausos. Sílvio dominava aquele circo emocionante de doações e shows como um domador de leões, sua parcimônia me dava confiança que o 25 ia chegar. O Silvio Santos e meu pai: deixavam-me tranquilos que ia ter dinheiro. Toda hora eles falavam do 25, eu nem precisava fingir que eu só pensava nisso. Eu estava muito animado, já se aproximavam as últimas voltas e o sono nem veio. Chegou então o primeiro banco, o Itaú: 1 milhão! Logo depois, uma sequência de pancadas: Bradesco, Santander, Caixa, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões! Mas nada de chegar no 25... Só sei que um homem meio parecido com meu pai subiu no palco em nome de um banco que chamava Hipercard. Como eu nunca tinha ouvido aquela palavra, fiquei desacreditado na doação, por mais que o envelope fosse grandão. O Silvio deve ter sentido o desamparo nos meus olhos e disse: "vamos abrir devagar esse envelope, tô sentindo que vem coisa grande por aí." Uma moça alta pegou um envelope e começou a retirá-lo bem devagarzinho, de trás pra frente.

- "Olha lá, um zero... Mais um zero... mais dois zeros..."

O Sílvio falava normalmente, eu não entendi porque ele não tava tão animado, mas sei lá, continua.

- "Mais um zero... opa, mais um zero... é agora... olha lá... 5! 5 milhões!"

5 milhões! Caramba, era muito dinheiro. Passou! Passou! 25! Chuva de papel picado, várias moças altas dançando de perna de fora, Sílvio se despede, um monte de nome na TV e acabou. 

Depois da catarse que eu vivi naquela noite, nunca mais perdi um Teleton, nem que fosse só pra ver a parte do sábado à noite (até porque o resto não era tão divertido).

quinta-feira, 11 de maio de 2023

O Búfalo

Não é o do conto da Clarice. O jornal O Búfalo nunca chegou a publicar meus textos, por obra de uma editora irresponsável (tsc, tsc). De tanto reclamarem, resolvi postá-los aqui, mesmo os avisando que permaneceriam anônimos. Os primeiros três são adaptações de formatos consagrados à realidade santacruzense: um poema de Drummond, uma cena de Choque de Cultura e um miniconto de amor. O último... ah, gracejo, e só. 


1. "Drummond na aula de física"


João,
que copiou de Marcos,
que copiou de Dora,
que copiou de Laura, 
que copiou de Sofia,
que copiou de Paulo,
que tirou foto da apostila do ano passado



2. "Choque de Cultura analisa o grêmio"

(passando o VT de uma reunião do grêmio)
Rogerinho: Eu só não entendo esse monte de cadeira vazia e o pessoal sentando em cima da mesa!
Maurílio: Isso aí acontece, Rogerinho, porque quando a pessoa senta em cima da mesa, ela automaticamente ganha mais anos de maturidade, e pode falar qualquer merda que todo mundo vai achar inteligente (sorri pra câmera)
Julinho: E comé que a pessoa fica mais velha do nada, animal?!?
Maurílio: Ao sentar em cima da mesa, o aluno desenvolve escoliose rapidamente, destruindo completamente sua coluna. E, como todo mundo sabe, não tem nada mais velho do que uma boa escoliose
Renan: Issfo aí é um absurdo, ò, Rogerinho! A pessoa, vendo que o velho tem o DIREITO  de poder falar qualquer coisa sem ser questionado, tenta virar velho também!
Rogerinho: Ninguém respeita mais a conquista do velho, Renan!


3. "Amor à primeira vista: um miniconto de amor santacruzense"

Foi no primeiro cair das folhas do outono. Trocaram olhares amantes, fugidios, encontro eterno de um piscar envergonhado. Souberam de imediato que aquele instante fora mágico, o princípio de um sonho que os bateria na porta todas as noites. Sob as estrelas que brilhavam no céu de veludo, as duas almas pincelavam um futuro em comum: futuro áureo, selado por mãos dadas e palavras apaixonadas. Mas, para que se chegasse ao futuro, haveria de ter um meio... um ato de coragem dos heróis! Foi ele quem deu o primeiro passo em direção ao amor; mesmo com o rubor das paixões, decidiu reencontrar o ímã de seu olhar. Ao avistá-la, o coração entrou em disparada. Partiu às duras penas, mas irrefreável como um corcel em fuga. As batidas na boca e o paraíso nos olhos. Com a coragem que restara, disse afinal: "Que eletiva cê faz?"


4. Peça Natalina - 1 Ato 

(Belém, Israel. Dia 25/12 do ano 0. Noite, manjedoura)

-Jesus nasceu!
-Deus é pai.

Fecham as cortinas. 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

O fim do mundo

 Alice, a bebê das palavras difíceis, prenuncia: a-po-ca-lice. Florestas em chamas. Arcanjo Gabriel é acusado de receber propina para destruir a Argentina primeiro. O mar salgado avança. Lágrimas. Caetano compõe: o acabar das encaracoladas carolas cairá. O 1o continente a ruir é a África. Era o que previam as casas de apostas. Elon Musk se congela num abrigo subterrâneo, abaixo de uma Kalunga, na Lapa. Uma revolução socialista eclode. A revolução é prontamente contida. Lojas são saqueadas. A GloboNews repudia. Um acadêmico produz a última tese do mundo: "O final mar-fim: a salinização provocada pelos elefantes submersos no Índico". Chega a hora. Um ruído na porta da casa. Totô pensa: finalmente, a puta da babilônia.  

terça-feira, 2 de maio de 2023

Curso de Escrita Livre 2018

Abaixo, alguns dos textos escritos durante o curso de escrita livre, ministrado pelo professor Alejandro, no 2o semestre de 2018. Às propostas! 



Proposta 1: Crônica Instrutiva - A partir do modelo de uma crônica em que se ensinava a chorar, o aluno deveria redigir uma crônica em que se ensinava uma atividade banal ou naturalmente realizada no cotidiano.



Instruções básicas para uma passagem segura pelo elevador

      

 

Etapa 1: Os métodos de conduta ao se adentrar em um elevador variam de acordo com a ordem de chegada no mesmo.

(a): caso o leitor seja o indivíduo que entra por último no cubículo, quando já há outro(s) lá, é dele de quem deve se tomar a iniciativa da fala. Apresentam mais chance de sucesso, de acordo com pesquisas científicas realizadas nos últimos anos, as seguintes frases:

“Bom dia/tarde/noite” (84%)       

“Opa” (89%)

“Oi” (92%)

Ditos como “Oi, tudo bem?” (72%) apresentam alto risco de fracasso, pois, dependendo da ingenuidade egocêntrica do(s) interlocutor(es), uma conversa desconfortável pode se prolongar pelos andares seguintes.

(b): caso o leitor seja o indivíduo que se situava antes no cubículo anteriormente à entrada de outro(s), deve se atentar à iniciativa tomada em sua direção para que consiga se portar adequadamente perante qualquer uma. As frases de maior sucesso apresentadas anteriormente são aquelas que podem concluir tranquilamente a etapa 1 repetindo, com exatidão, a mesma frase que lhe foi dita. Mimetizar, além da rapidez, a falta de entusiasmo no tom de voz é essencial.

Agora, se lhe for dirigida uma frase com menor grau de sucesso, é de extrema importância que tenha certo repertório semântico e comportamental. Peguemos a frase “Oi, tudo bem?” (72%) como exemplo. A resposta-pegadinha “Tudo e você” (57%) apresenta maior risco de erro justamente devido à amplitude de possibilidades. Repare, porém, que a taxa ainda se mantém acima dos 50%, uma vez que, em mais de 50% dos casos, não há o interesse real em saber a qualidade da situação atual do interlocutor.

Resposta ideal: “Tudo”(84%)

Etapa 2: Concluída a etapa 1, todos os indivíduos dentro do elevador passam a ter responsabilidade equivalente para a boa passagem pelo elevador. Nesta etapa, deve-se atentar a possíveis variantes, dentre as quais as mais comuns são cachorros, bebês e crianças. Espera-se que essas coisas não emitam som. Mesmo assim, é perigoso deixar com que tais elementos se tornem atrativos da atenção, ou, como se denomina na comunidade especializada, “ímãs visuais”.  Em casos de fortes ímãs visuais, o celular pode ser de suma importância. Porém, deve-se ter extremo cuidado ao se fazer uso desse recurso externo. A principal precaução é JAMAIS entrar no WhatsApp. Não é necessário descrever a magnitude do transtorno de se tocar, acidentalmente, um áudio, uma corrente ou, em pior dos casos, o catastrófico “gemidão do zap”(16%). Para evitar tais cenários, garanta-se pela leitura de e-mails antigos. Descontos de imóveis e avisos de reunião de pais são extremamente eficazes.

Etapa 3: A saída do elevador é pouco suscetível a grandes erros, uma vez que a urgência nesse momento inibe a prolongação da fala. Não obstrua as saídas e mantenha o contato visual adequado, isto é, com o piso do elevador. Bocejos e coceiras só são seguros no cerramento total das portas, enquanto fungadas podem ser executadas antes.

Proposta 2: Proposta Livre: Os alunos, em dupla, fariam suas próprias propostas e escreveriam a partir dela. Deco e eu fizemos uma "proposta arraste", em que um deveria zombar do outro.

            Se tem alguma palavra que melhor descreve essa pessoa, eu não sei, porque foi ele quem sempre teve um domínio absurdo de todas as palavras. Com elas, faz trocadilhos, escreve textos NADA problemáticos, e, principalmente, arrasta pessoas muito próximas (literalmente próximas). Não se espante se você ouvir, em uma manifestação na frente do Sinpro, alguém dizendo que “professores são vagabundos” e que “aula é na sala”. Será ele, provavelmente com um cachecol e um sol de 30 graus batendo em seu pescoço.

            Pra quem ainda não conhece o cara de quem eu estou falando, é melhor eu descrevê-lo: ele tem cabelos castanhos e longos, mais ou menos até os ombros, usa óculos, vai muito bem em exatas e é um dos melhores jogadores de xadrez do Santa Cruz. Sim, é quem você está pensando: Gabriel Cypri.

            Mentira, é claro que tô falando do André Coelho. Até porque é meio difícil não fazer isso quando a cada dia ele vem te contar sobre uma nova pessoa que quer pegá-lo ou tem crush nele. (É uma pena que poucos alunos vão viajar com a Cláudia esse ano, mas de fato não é mais o México a preferência absoluta do colegial).

            Falando da Cláudia, você sabia que ela sabe o nome dele? Ah, já sabia? Desculpa, mas é porque eu também adquiri essa mania de falar isso várias vezes pra todo mundo...

            Já que esse texto é sobre o Deco e será lido pela Bianca ou o Alejandro, é melhor eu falar sobre uns temas controversos de uma forma bem engraçada, só pra não perder a tradição. Hm, deixa eu ver... Sexo com ninfas já foi, maneiras de se matar já foi... Que tal aborto? Isso, aborto! Genial, vai render no mínimo uma meia hora de conversa com a Bianca...

             Bom, diferentemente do André arrastando alguém, eu sei quando é a hora de parar, e acho que essa hora chegou. André, se você estiver lendo isso, saiba que tudo o que disse foi só porque eu te acho espetacular e, por isso, presto atenção em cada detalhe seu. Eu CLARAMENTE te amo.

Beijos (melhores que o da Lili, lor)


Proposta 3: Memória de Aprendizagem - um texto de gênero livre em que a aquisição de um aprendizado estaria presente



Sabão em pó

       

        Quando via que meu sabão estava fino e pequeno, ia correndo em direção a minha mãe, pedindo que comprasse outro imediatamente. Importunava-a todas as horas, minutos, segundos até que o sabão novo estivesse nas minhas mãos.

        Então, depois de tanta pressão, ele chegava lá. Aquele barra robusta, enorme, imponente. Um formato de tamanha formosura, nem cabia direito nas minhas mãos ansiosas.

        Nos primeiros banhos, me divertia com meu sabão novo. Esfregava, apertava, soprava... Cada centímetro quadrado da minha pele abraçado por um colchão de espuma. Tinha dias que até chamava meu irmão pro chuveiro, porque não queria que ele tomasse banho com um sabão menor que o meu.

        Depois de uns dias, já não se lia mais o escrito da marca. A superfície também já não era mais tão lisa, algumas rugosidade, um pelo esquisito colado lá... Mas tudo bem, ele ainda era grande e eterno, fazia bolha que nem louco.

 

        Não sei o porquê, mas me vi, às 10 horas da noite de uma terça, vendo um filme na sala com meu pai. Minha hora de dormir já tinha passado, mas ele, tão centrado, nem me mandou pra cama. Muito menos me impediu ficar lá com ele.

        O que meu pai via se chamava O Curioso Caso de Benjamin Button. E era curioso mesmo, coisa de um cara que ficava velho e depois novo, e não o contrário, como meus pais e meu irmão.

        E de tão curioso, fiquei lá fixo, hipnotizado, como meu pai. Era estranho, porque em todos os filmes tinha vontade de ficar abraçado com ele, perguntando e conversando. Mas aquela noite, não. Estava imóvel.

        E perplexo, isso perplexo! Que coisa triste esse homem, quando velho todos eram velhos e morriam, quando era adulto, só tinham alguns adultos, e quando era novo já estavam todos velhos e morriam.

        Ele e ela no final. Ele, uma criança se atrofiando. Ela, uma velha caquética na espera do abandono. Ele morre. Ela vai morrer. Chega a tempestade, a água toma as cadeiras do hospital, as fotos, as cartas, e o relógio, que não para de rodar, e rodar, e rodar...

        Papai! Papai! Eu não quero que você morra! Papai! Papai! Papai! Eu não quero morrer! Eu não quero morrer! Papai!...

         Quando via que meu sabão estava fino e pequeno, ia correndo em direção a minha mãe, pedindo que comprasse outro imediatamente. Importunava-a todas as horas, minutos, segundos em que o sabão novo não estava nas minhas mãos.




quarta-feira, 26 de abril de 2023

Vi(c)tor

Vitor (ou, Victor) foi um dos meus primeiros amigos que fiz na vida. Era judeu, de cabelo castanho bagunçado, tinha uma irmã mais velha, uma babá chamada Léo e um pai magricelo. Durante o tempo que estudamos juntos, o ritual era ir à sua casa toda a segunda comer arroz e feijão, assistir desenho, brincar e tomar banho. Apesar do acordo tácito, era de praxe que ligássemos no domingo pra realizar o convite formal. Nossas mães firmavam o acordo com a autorização na agenda, o que conferia certo status de independência. Foram bons anos de amizade, dos quais conservo algumas especiais memórias:

1. A primeira vez que Vitor foi viajar comigo pra Itu foi...muito legal. Ao final do sábado, seus pais vieram buscá-lo, sem antes conversar com os meus na sala de televisão. Talvez por ter trazido um amigo pra viajar, eu estava me sentindo adulto, o que me fez permanecer entre os mais velhos. Até que sem muito pudor, o pai de Vitor saiu da casa: "vou só fumar um cigarro." Um misto de indignação e deboche me tomou de súbito... o pai do Victor fuma? De assalto, transformei a superioridade da moral em uma piada mequetrefe sobre cigarro. Silêncio, nenhuma risada. Mandei mal. E como se não bastasse, a mãe do Vitor me repreendeu, não era pra desrespeitar quem fuma. O ruim de tomar bronca de mãe de amigo é que você está sendo julgado por uma constituição estrangeira, não se sabe por onde tatear... Pedi desculpas e nunca mais comentei nada sobre o hábito do pai.

2. Estávamos Victor e eu na troca de turno do banho, fazendo alguma graça agora que já não precisávamos mais das babás lá para nos ensaboar. Concentrado para não deixar o shampoo cair no olho, não reparei no que acontecia para fora dos azulejos. Quando dei de volta, deparei-me com a seguinte imagem: Victor, de costas pra mim, esticando as duas nádegas e com a cabeça entre as coxas. Um cu. Nítido e potente. Sujo-limpo. Não lembro se já conhecia a palavra, mas sei que o signo que se formara na minha cabeça era aquele buraco estranho que vi tão curioso e atento. Se algo no mundo deveria ser um cu, era aquilo, e nada mais.

3. Espalhamos Legos e brinquedos pela casa, formando uma trilha lúdica de objetos do quarto de Vitor ao quarto de Léo. O objetivo era resgatar um soldado perdido no quartinho dos fundos, missão penosa quando não podíamos pisar no chão de lava. Me surpreendi quando, ao final da brincadeira, (o soldado foi resgatado!) percebi: parecia real.

Nosso desenho favorito era HotWheels. Um plot implacável: pilotos de corridas eram acionados para combater o mal com suas habilidades no volante. Na hora do combate, aceleravam no QG em direção ao portal, que poderia conduzi-los desde o deserto até a savana. Empolgados, nem percebíamos o sorvete derretendo no potinho. Não seria difícil imaginar, portanto, a minha empolgação quando certo dia Victor me falou: "meus pais vão deixar a gente dirigir!" Eu não me aguentava. Era meu sonho dirigir um carro. Acelerar, virar pra esquerda, virar pra direita...
- Mas é só por 15 minutos...
- Tudo bem!
- A gente se reveza
- Tá, tá
Tomei banho pensando por onde iria andar... Acho que não vou muito longe, o pai do Vitor já foi mó legal de deixar a gente dirigir, não dá pra abusar. Não queria parecer tão eufórico com a proposta, então deixei Victor ir primeiro. Prontos para a ação. Vitor abriu a porta do carro e assumiu o volante. Segui os passos do meu piloto e sentei ao seu lado. Pela primeira vez no banco da frente, mantive o olhar para a frente, sem deixar que a curiosidade de entender a maquinaria revelasse minha inexperiência. Cinto, clack. Verdade: cinto, clack. Estou pronto, estou pronto... 1 segundo, nada. 5 segundos, nada. 20 segundos, nada, e o muro do prédio vizinho ainda na mesma distância. Parados, era assim que estávamos. Deixei a compostura de lado e olhei confuso para Victor: ele mexia efusivo no volante, animado como um autêntico herói. Foi aí que me dei conta: iríamos dirigir de mentirinha. A fantasia de Vitor durou alguns minutos mais, quando, altruísta, me deixou tomar posse. Não queria ser ingrato, nem estragar a graça, então fingi, como se finge um orgasmo, que estava derrapando em alta velocidade pelo gelo da Antártica. Vitor acompanhava meu entusiasmo adicionando obstáculos, enquanto eu observava discretamente o pai de Victor fumando satisfeito com o porteiro.  


Cavalo

 A primeira história sobre mim que me foi contada. No aniversário do meu irmão, irrompi numa roda para pegar o microfone e anunciar orgulhosamente: "Eu sou o Rodrigo, tenho 3 anos e meu animal favorito é cavalo." Por muitos anos, mantive a mesma opinião. Mas não mantive a altivez de enunciá-la a plenos pulmões.

Primeiras memórias

Em algum momento, eu imaginei duas coisas:

1. Que havia um grande universo habitado por todas as datas (DD/MM/AAAA). Todo dia, era O dia de uma data. E essa data, nesse dia, era alavancada a um posto solar de magnificência. Como se no céu se lesse: 27/04/2023. Nos demais dias, eram datas comuns.

2. Que todos os tiros imaginários dados por dedos em formato de pistola se materializariam em tiros reais. Por isso, não dava tirinhos no meu irmão, nem na minha mãe. 

Chutar a bola

Vem sem anúncio. Você está observando um mundo ao seu redor, cores e sons, quando, virando bruscamente seu pescoço, surge aquela redonda ofe...