segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Matitã

Um certo menino na escola, a mais antiga, se chamava Matitã. Na verdade, esse não era seu nome, era um dos apelidos. O outro era alzhimer, a gente começou a chamar ele assim porque ele sempre se esquecia da regra do jogo. Era engraçado chamar ele assim porque ele ficava bravo, e quando ele ficava bravo era muito bravo, de um jeito que até assustava. Devia ser também porque ele era mais velho, 1 ano, e porque era meio diferente da gente, de parecer assim. Me contaram uma vez que a mãe dele trabalhava na escola, nunca reparei nela, das professoras tinha nenhuma que parecesse. 

Na queimada não podia queimar na primeira vez que era morto. Quando o Matitã era morto pela gente, ele nunca se lembrava e jogava a bola forte, mirando nossos pés ou braços. Toda vez! Dava um ódio assim. Por isso que a gente ria e fazia graça. Depois batia o sinal no intervalo e a gente voltava pra aula querendo brincar mais.

Quando foi da apresentação de poemas que os alunos iam recitar para os pais, teve uma semana de ensaio que a gente assistia a todas as séries. A minha ia recitar um poema em inglês, um assim de revolta. A gente, no final, jogava umas carteiras no chão e saía do palco bem rebelde, dava uma impressão legal. O poema da série do Matitã era em português, eu sei porque começava falando alguma coisa de camburão e navio negreiro. Era mais fácil, mas a gente queria ver se ele ia esquecer ou ficar nervoso na frente de todo mundo. O Matitã diziam ser mais burro, que pegava muita recuperação. Ele estava mais atrás no palco, ouvindo os colegas e cambaleando em minicírculos, rememorando baixinho sua parte. Quando começou a falar, foi igual a todo mundo, meio sem graça. Eu parei de prestar atenção. Foi quando todo mundo começou a rir, alguma coisa diferente. O que foi? O que foi?

- Ele falou fiofó!

Droga, eu tinha perdido. No ensaio seguinte, quando ele começou a recitar, não parei de prestar atenção, e nem meus colegas, que especulavam quando ia ser a parte do fiofó. A expectativa foi acumulando ao redor, mas eu não sabia quando, estava ficando tenso com medo de perder de novo. 

"- É preciso jogar o ferro fora."

 Agora eu tinha entendido, quando ele falava ferro fora a gente ouvia fiofó. Não achei tão parecido, mas guardei na memória a parte do poema para não perder mais nos ensaios seguintes a hora de rir.

No dia das apresentações, tinha muitos pais e mães. Fiquei tão nervoso que nem lembrei de assistir ao poema do Matitã, pra ver se iam rir. Meus pais me filmaram, nem quis assistir porque tive vergonha. Mas acho que deu tudo certo, quando jogamos as carteiras no chão e saímos imponentes, os pais bateram muita palma. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Teleton

 A primeira vez que ouvi falar em Teleton foi numa conversa dos meus pais no restaurante. Me deu vontade de ver. Achei muito curioso tudo aquilo: era um programa tipo o Faustão só que iam muitos artistas e o objetivo era arrecadar dinheiro pra uma instituição que cuidava de crianças deficientes. Teve uma vez que eu tinha feito natação com meu pai, um menino sem braço e o pai dele, tinha sido muito estranho. Eu gostei era do placarzinho na bancada que mostrava quanto o público já tinha doado. 25 milhões, era essa a meta. O número crescia muito rápido e já parecia ser muito grande, mas com certeza estava longe dos 25 milhões. Apenas com este número fixo na cabeça, aguentei mais uma meia hora e adormeci no sofá. De manhã, fui colocar no Bom dia e Companhia e qual não foi a minha surpresa ao ver que ainda estava tendo o Teleton (e era ao vivo!) Voltei à minha torcida pelo 25, ainda longe longe. Nem via mais as crianças de uniforme ao redor do palco, só contava com os olhos os números subindo sem parar. Minha mãe explicou no almoço que o programa não parava, começava sexta à noite e terminava sábado de noite. "Que nem o shabat", talvez eu tenha pensado. Fiquei feliz que ainda ia ter muito programa, mas meio preocupado quando eu voltei do banho e nem tinha um 2 na primeira casinha. Meu pai, que entendia muito dessas coisas, tranquilizou:

- "Eles deixam as doações de banco pro final."

Fiquei aliviado, apesar de não ter uma ideia clara do que era um banco. Foi então que entrou do nada o Sílvio Santos, ele eu conhecia. Chegou sem cerimônias, discreto como quem curte mais a surpresa do que os aplausos. Sílvio dominava aquele circo emocionante de doações e shows como um domador de leões, sua parcimônia me dava confiança que o 25 ia chegar. O Silvio Santos e meu pai: deixavam-me tranquilos que ia ter dinheiro. Toda hora eles falavam do 25, eu nem precisava fingir que eu só pensava nisso. Eu estava muito animado, já se aproximavam as últimas voltas e o sono nem veio. Chegou então o primeiro banco, o Itaú: 1 milhão! Logo depois, uma sequência de pancadas: Bradesco, Santander, Caixa, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões! Mas nada de chegar no 25... Só sei que um homem meio parecido com meu pai subiu no palco em nome de um banco que chamava Hipercard. Como eu nunca tinha ouvido aquela palavra, fiquei desacreditado na doação, por mais que o envelope fosse grandão. O Silvio deve ter sentido o desamparo nos meus olhos e disse: "vamos abrir devagar esse envelope, tô sentindo que vem coisa grande por aí." Uma moça alta pegou um envelope e começou a retirá-lo bem devagarzinho, de trás pra frente.

- "Olha lá, um zero... Mais um zero... mais dois zeros..."

O Sílvio falava normalmente, eu não entendi porque ele não tava tão animado, mas sei lá, continua.

- "Mais um zero... opa, mais um zero... é agora... olha lá... 5! 5 milhões!"

5 milhões! Caramba, era muito dinheiro. Passou! Passou! 25! Chuva de papel picado, várias moças altas dançando de perna de fora, Sílvio se despede, um monte de nome na TV e acabou. 

Depois da catarse que eu vivi naquela noite, nunca mais perdi um Teleton, nem que fosse só pra ver a parte do sábado à noite (até porque o resto não era tão divertido).

Chutar a bola

Vem sem anúncio. Você está observando um mundo ao seu redor, cores e sons, quando, virando bruscamente seu pescoço, surge aquela redonda ofe...