segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

O pacto

Passado mais de um semestre em convivência diária com os jovens do ensino médio, algo mais sutil que a desconcentração das mentes gigabytes ou a apatia dos corações bluetooth percebi se espreitando entre alguns. O amor entre os meninos vive em breves lapsos, sigilo tácito e febril.

Entre lutas gratuitas e carinhos demorados, lá está ele. Esses meninos olham pros seus corpos definidos, sentem os pelos desabrocharem dos confins de seu corpo e falam afasicamente de bolas e mulheres, são esses que sentem o ímpeto insaciável de examinar com as próprias mãos um corpo como o seu.

Já estão acostumados com a madureza dos seus traços, e as curvas femininas, se poucas vezes podem ser exploradas com gentileza e paciência, burbulham no imaginário coletivo ainda num protótipo imaculado e cru de formas saturadas e ereções programadas.

Muito mais rica é a confusão de afeto, violência, virilidade, e, é claro, a paixão egressa do corpo de um amigo. Não há nada mais belo que o amor escondido nos gestos virulentos, e nada mais espalhafatoso que os pequenos toques despropositados em uma pele macia e suculenta.

No carnaval do colégio, a sala estava repleta de abadás e lépidos peitorais, alguns até alargavam-no para dar vazão ao busto e aos mamilos. Certa hora, quando eu estava tirando dúvidas de um grupo, percebi entre dois meninos que mal se olhavam uma mão ossuda afinando um fino fiapo que futilmente se desprendia na roupa do amigo. Não era necessária a cortina de fumaça dos gestos grandes e corpulentos; nos milímetros da massagem repetida e amorosa do fino fiapo explodia um minúsculo buraco-negro, uma jorrada de estrelas cadentes em eterna expansão. Era o amor possível naquele espaço camuflado da realidade.

Todas são as oportunidades para saborear um gosto. Os cumprimentos que se prolongam até meados do primeiro assunto, os abraços e empurrões melados de suor e grama, os piparotes e beliscões afetuosos de quem quer esconder o amor na blague. 

Ou às vezes não há nada. É apenas uma aula. E nada se vê na lousa e na frente dela porque na frente de tudo há um ombro largo, uma camisa de tecido definido pelo músculo pulsante e cachos castanho-escuros que cobrem parte do pescoço. A jugular. 

Primeiro, joga-se uma bolinha de papel amassada dentro da camiseta, simbolizando por este objeto em missão o desejo místico de sê-lo. Presumindo inconscientemente os fins ocultos da piada, este corpo da frente se vira para trás brevemente e exibe um meio sorriso leite de prazer e consentimento. O corpo de trás entende que pode então tocar o outro gratuitamente, mas a distância imposta pela carteira impede-o. Usa-se então uma régua, qualquer que seja, para alcançar a nuca arrepiada do corpo da frente e lá fincar a superfície lateral, em tenso suspense. Por alguns instantes, o largo objeto enrijecido luta para não se desgarrar daquele pedaço de pele, de terra, constrói seu próprio limbo de vida em corda bamba prestes a romper.

Acometido pela paixão de Orfeu, o corpo da frente se vira. A régua cai, a lousa se restitui e o amor volta correndo assustado para a toca de sua hibernação.

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