Um certo menino na escola, a mais antiga, se chamava Matitã. Na verdade, esse não era seu nome, era um dos apelidos. O outro era alzhimer, a gente começou a chamar ele assim porque ele sempre se esquecia da regra do jogo. Era engraçado chamar ele assim porque ele ficava bravo, e quando ele ficava bravo era muito bravo, de um jeito que até assustava. Devia ser também porque ele era mais velho, 1 ano, e porque era meio diferente da gente, de parecer assim. Me contaram uma vez que a mãe dele trabalhava na escola, nunca reparei nela, das professoras tinha nenhuma que parecesse.
Na queimada não podia queimar na primeira vez que era morto. Quando o Matitã era morto pela gente, ele nunca se lembrava e jogava a bola forte, mirando nossos pés ou braços. Toda vez! Dava um ódio assim. Por isso que a gente ria e fazia graça. Depois batia o sinal no intervalo e a gente voltava pra aula querendo brincar mais.
Quando foi da apresentação de poemas que os alunos iam recitar para os pais, teve uma semana de ensaio que a gente assistia a todas as séries. A minha ia recitar um poema em inglês, um assim de revolta. A gente, no final, jogava umas carteiras no chão e saía do palco bem rebelde, dava uma impressão legal. O poema da série do Matitã era em português, eu sei porque começava falando alguma coisa de camburão e navio negreiro. Era mais fácil, mas a gente queria ver se ele ia esquecer ou ficar nervoso na frente de todo mundo. O Matitã diziam ser mais burro, que pegava muita recuperação. Ele estava mais atrás no palco, ouvindo os colegas e cambaleando em minicírculos, rememorando baixinho sua parte. Quando começou a falar, foi igual a todo mundo, meio sem graça. Eu parei de prestar atenção. Foi quando todo mundo começou a rir, alguma coisa diferente. O que foi? O que foi?
- Ele falou fiofó!
Droga, eu tinha perdido. No ensaio seguinte, quando ele começou a recitar, não parei de prestar atenção, e nem meus colegas, que especulavam quando ia ser a parte do fiofó. A expectativa foi acumulando ao redor, mas eu não sabia quando, estava ficando tenso com medo de perder de novo.
"- É preciso jogar o ferro fora."
Agora eu tinha entendido, quando ele falava ferro fora a gente ouvia fiofó. Não achei tão parecido, mas guardei na memória a parte do poema para não perder mais nos ensaios seguintes a hora de rir.
No dia das apresentações, tinha muitos pais e mães. Fiquei tão nervoso que nem lembrei de assistir ao poema do Matitã, pra ver se iam rir. Meus pais me filmaram, nem quis assistir porque tive vergonha. Mas acho que deu tudo certo, quando jogamos as carteiras no chão e saímos imponentes, os pais bateram muita palma.
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