1. A primeira vez que Vitor foi viajar comigo pra Itu foi...muito legal. Ao final do sábado, seus pais vieram buscá-lo, sem antes conversar com os meus na sala de televisão. Talvez por ter trazido um amigo pra viajar, eu estava me sentindo adulto, o que me fez permanecer entre os mais velhos. Até que sem muito pudor, o pai de Vitor saiu da casa: "vou só fumar um cigarro." Um misto de indignação e deboche me tomou de súbito... o pai do Victor fuma? De assalto, transformei a superioridade da moral em uma piada mequetrefe sobre cigarro. Silêncio, nenhuma risada. Mandei mal. E como se não bastasse, a mãe do Vitor me repreendeu, não era pra desrespeitar quem fuma. O ruim de tomar bronca de mãe de amigo é que você está sendo julgado por uma constituição estrangeira, não se sabe por onde tatear... Pedi desculpas e nunca mais comentei nada sobre o hábito do pai.
2. Estávamos Victor e eu na troca de turno do banho, fazendo alguma graça agora que já não precisávamos mais das babás lá para nos ensaboar. Concentrado para não deixar o shampoo cair no olho, não reparei no que acontecia para fora dos azulejos. Quando dei de volta, deparei-me com a seguinte imagem: Victor, de costas pra mim, esticando as duas nádegas e com a cabeça entre as coxas. Um cu. Nítido e potente. Sujo-limpo. Não lembro se já conhecia a palavra, mas sei que o signo que se formara na minha cabeça era aquele buraco estranho que vi tão curioso e atento. Se algo no mundo deveria ser um cu, era aquilo, e nada mais.
3. Espalhamos Legos e brinquedos pela casa, formando uma trilha lúdica de objetos do quarto de Vitor ao quarto de Léo. O objetivo era resgatar um soldado perdido no quartinho dos fundos, missão penosa quando não podíamos pisar no chão de lava. Me surpreendi quando, ao final da brincadeira, (o soldado foi resgatado!) percebi: parecia real.
Nosso desenho favorito era HotWheels. Um plot implacável: pilotos de corridas eram acionados para combater o mal com suas habilidades no volante. Na hora do combate, aceleravam no QG em direção ao portal, que poderia conduzi-los desde o deserto até a savana. Empolgados, nem percebíamos o sorvete derretendo no potinho. Não seria difícil imaginar, portanto, a minha empolgação quando certo dia Victor me falou: "meus pais vão deixar a gente dirigir!" Eu não me aguentava. Era meu sonho dirigir um carro. Acelerar, virar pra esquerda, virar pra direita...
- Mas é só por 15 minutos...
- Tudo bem!
- A gente se reveza
- Tá, tá
Tomei banho pensando por onde iria andar... Acho que não vou muito longe, o pai do Vitor já foi mó legal de deixar a gente dirigir, não dá pra abusar. Não queria parecer tão eufórico com a proposta, então deixei Victor ir primeiro. Prontos para a ação. Vitor abriu a porta do carro e assumiu o volante. Segui os passos do meu piloto e sentei ao seu lado. Pela primeira vez no banco da frente, mantive o olhar para a frente, sem deixar que a curiosidade de entender a maquinaria revelasse minha inexperiência. Cinto, clack. Verdade: cinto, clack. Estou pronto, estou pronto... 1 segundo, nada. 5 segundos, nada. 20 segundos, nada, e o muro do prédio vizinho ainda na mesma distância. Parados, era assim que estávamos. Deixei a compostura de lado e olhei confuso para Victor: ele mexia efusivo no volante, animado como um autêntico herói. Foi aí que me dei conta: iríamos dirigir de mentirinha. A fantasia de Vitor durou alguns minutos mais, quando, altruísta, me deixou tomar posse. Não queria ser ingrato, nem estragar a graça, então fingi, como se finge um orgasmo, que estava derrapando em alta velocidade pelo gelo da Antártica. Vitor acompanhava meu entusiasmo adicionando obstáculos, enquanto eu observava discretamente o pai de Victor fumando satisfeito com o porteiro.