segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Chutar a bola

Vem sem anúncio. Você está observando um mundo ao seu redor, cores e sons, quando, virando bruscamente seu pescoço, surge aquela redonda oferta vindo em sua direção: uma bola rolando.

Geralmente há atrás dela uma dupla, um trio, um grupo de outras crianças, algumas com pais ou irmãos mais velhos. Assistem com pouca preocupação ao caminho incerto da bola, pois sabem que a esfera, no Brasil, é (literal e metaforicamente) a aliança mais rápida e eficaz entre dois estranhos. Tão breve ela foi, ela voltará. Pode ser com algum toque de classe, alguma graça de quem exprime num instante o sonho reprimido de ser jogador de futebol, ou o contrário, o desembaraço motor da dona de casa que vê na bola a vilã mítica de sua paz, e por isso, nunca ousou mexer com seus encantos.

Você, um menino já em forma, sente a cada volta completa o ímpeto incontrolável de chutar aquela bola o mais forte possível. Toda a raiva sangrenta de seus ancestrais, desde o hominídeo que primeiro devorou o mamute, todos vão se apoderando de si à medida que a bola se aproxima da sua chuteira nova.

Você já venceu a gravidade, já passou pelos primeiros chutes, vencidos com o emprego de toda a força que tem seu corpinho e aos gritos do papai - aquele chute já não te empurraria para trás. Ainda mais porque se aproxima uma bola de leite, uma bola de queimada, uma bola de vôlei, quem sabe... Já não há calculo necessário para dimensionar a força com que a bola vai sair do seu pé. 

O chute é inevitável. Aguda-se a potência. Prenuncia-se a explosão, a virilidade, a violência, o tesão. A raiva do mundo concentrada em quatro terços de pi raio ao cubo. A raiva de ser, a raiva de querer-ser, a raiva de não ser.

Não. Você não pode chutar aquela bola. Ela pode machucar alguém. Ela pode cair naquele barranco lá. Ela pode furar. Ela pode não ser de chutar. E, afinal, ela não é sua. Você não trouxe sua bola porque não quis. 

Você gentilmente recolhe a bola alheia, encurvando-se para não dominá-la com os pés. Você arremesa-a parcimoniosamente ao menino mais novo de olhos ansiosos. Ela pinga, uma, duas vezes, e é agarrada pelas mãos miúdas. "Agradece, filho". "Brigado"

Somado da vida miserável às frustrações e burocracias, subitamente no teto preto do seu olho raivoso irrompe voraz o arrependimento: você deveria ter chutado aquela bola 


O pacto

Passado mais de um semestre em convivência diária com os jovens do ensino médio, algo mais sutil que a desconcentração das mentes gigabytes ou a apatia dos corações bluetooth percebi se espreitando entre alguns. O amor entre os meninos vive em breves lapsos, sigilo tácito e febril.

Entre lutas gratuitas e carinhos demorados, lá está ele. Esses meninos olham pros seus corpos definidos, sentem os pelos desabrocharem dos confins de seu corpo e falam afasicamente de bolas e mulheres, são esses que sentem o ímpeto insaciável de examinar com as próprias mãos um corpo como o seu.

Já estão acostumados com a madureza dos seus traços, e as curvas femininas, se poucas vezes podem ser exploradas com gentileza e paciência, burbulham no imaginário coletivo ainda num protótipo imaculado e cru de formas saturadas e ereções programadas.

Muito mais rica é a confusão de afeto, violência, virilidade, e, é claro, a paixão egressa do corpo de um amigo. Não há nada mais belo que o amor escondido nos gestos virulentos, e nada mais espalhafatoso que os pequenos toques despropositados em uma pele macia e suculenta.

No carnaval do colégio, a sala estava repleta de abadás e lépidos peitorais, alguns até alargavam-no para dar vazão ao busto e aos mamilos. Certa hora, quando eu estava tirando dúvidas de um grupo, percebi entre dois meninos que mal se olhavam uma mão ossuda afinando um fino fiapo que futilmente se desprendia na roupa do amigo. Não era necessária a cortina de fumaça dos gestos grandes e corpulentos; nos milímetros da massagem repetida e amorosa do fino fiapo explodia um minúsculo buraco-negro, uma jorrada de estrelas cadentes em eterna expansão. Era o amor possível naquele espaço camuflado da realidade.

Todas são as oportunidades para saborear um gosto. Os cumprimentos que se prolongam até meados do primeiro assunto, os abraços e empurrões melados de suor e grama, os piparotes e beliscões afetuosos de quem quer esconder o amor na blague. 

Ou às vezes não há nada. É apenas uma aula. E nada se vê na lousa e na frente dela porque na frente de tudo há um ombro largo, uma camisa de tecido definido pelo músculo pulsante e cachos castanho-escuros que cobrem parte do pescoço. A jugular. 

Primeiro, joga-se uma bolinha de papel amassada dentro da camiseta, simbolizando por este objeto em missão o desejo místico de sê-lo. Presumindo inconscientemente os fins ocultos da piada, este corpo da frente se vira para trás brevemente e exibe um meio sorriso leite de prazer e consentimento. O corpo de trás entende que pode então tocar o outro gratuitamente, mas a distância imposta pela carteira impede-o. Usa-se então uma régua, qualquer que seja, para alcançar a nuca arrepiada do corpo da frente e lá fincar a superfície lateral, em tenso suspense. Por alguns instantes, o largo objeto enrijecido luta para não se desgarrar daquele pedaço de pele, de terra, constrói seu próprio limbo de vida em corda bamba prestes a romper.

Acometido pela paixão de Orfeu, o corpo da frente se vira. A régua cai, a lousa se restitui e o amor volta correndo assustado para a toca de sua hibernação.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Paralelos

2013


Era a primeira vez que pisava numa escola diferente na minha vida. Pelo menos era por um dia só, ia fazer o teste de inglês e ir embora. Tinha gente da minha idade, gente mais velha, gente sozinha, gente grande. Fiz a prova escrita na sala e esperei comendo o lanche no lado de dentro, como meu pai me recomendara. 

Me chamaram pra prova oral, deu vergonha de falarem meu sobrenome alto. Quando entrei tinha uma menina bonita ao lado. Bonita, minha idade, era morena e mexia no celular. Barulho da porta, celular no bolso. Conversamos sobre o aquecimento global, ela falava inglês bem, eu esqueci como falava fábrica - factory, factory, factory! Nós, a menina bonita e eu, falando em inglês naquela escola colorida da Zona Sul, aos 13 anos, sobre aquecimento global. Warm.

As avaliadoras nos liberaram e abriram a porta. Estávamos no segundo, os dois teriam que ir pra saída no térreo... O que eu falo? Não vou falar. Vou ver se ela também gostou de mim. Se não falar nada, tá nervosa, como eu. E se puxar muito papo, é também porque gostou de mim. Nós dois em cima, thank you, escada caracol, caracol.

- "Acho que foi de boa, né?" - Ela disse.

- "Sim, sim." - Concordei

- "Tchau!"

Ela desceu as escadas à frente. Diminuí meus passos para descer atrás, fingindo que tomava cuidado para não tropeçar. Enquanto a via sair sozinha, seu braço puxando o celular no bolso, meu pai me abraçou e perguntou se eu tinha ido bem:

- "Sim" - querendo chutar sua canela e chorar.

2022

Não imaginava que com mais de 20 anos me depararia num verdade e desafio. Depois do karaokê, alguns de nós fomos para a casa da amiga da minha amiga. Tinha algo de Laranja Mecânica, se os alvos da gangue de Alexander fossem os nouveaux riches do Morumbi. Tão logo se quebrou o gelo, as línguas sanfonavam para fora das bocas e as peças de roupas tombavam vorazes. Mexia um pouco no celular pra não parecer afoito em entrar nos desafios, de canto de olho foi então que notei: deveria se beijar por no máximo 20 segundos, mas os casais tinham dificuldade de desgrudar pele com pele e estendiam por uns 30, 40 segundos. 

Fui beijar a minha amiga, ela estava de olhos fechados, o que me pareceu um bom sinal. O funk na tevê se misturava com a voz feminina, que proclamava: treze, catorze, quinze... Calculei: se pararmos nos 20, ela não quer deixar claro que gostou. Se formos até os 30, 40, é também porque gostou, oras... Vinte um, vinte dois, paramos. Uma piada qualquer e alguém bramou:

- Próximo, próximo.

Quando já eram umas 6 da manhã a irritação dos meus pais desbancou a expectativa por qualquer experiência atestadamente excitante. O vento anunciava baixinho na janela que estava pronto para secar o tesão derretido no tapete. Chamei um Uber, dei um selinho em minha amiga e desci devagar em direção à porta, desviando do casal de amigos que no degrau escuro já não pensava em regras.

- Boa noite, amigo.

- Opa, bom dia já!

- Ah, é, verdade... É que tá frio ainda né?

 

 

Camiseta listrada

 Um dia que não aconteceu nada, fiquei em casa brincando, nada de extraordnário. Me lembro sempre desse dia - o dia que não aconteceu nada e eu estava vestindo uma camiseta listrada.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Matitã

Um certo menino na escola, a mais antiga, se chamava Matitã. Na verdade, esse não era seu nome, era um dos apelidos. O outro era alzhimer, a gente começou a chamar ele assim porque ele sempre se esquecia da regra do jogo. Era engraçado chamar ele assim porque ele ficava bravo, e quando ele ficava bravo era muito bravo, de um jeito que até assustava. Devia ser também porque ele era mais velho, 1 ano, e porque era meio diferente da gente, de parecer assim. Me contaram uma vez que a mãe dele trabalhava na escola, nunca reparei nela, das professoras tinha nenhuma que parecesse. 

Na queimada não podia queimar na primeira vez que era morto. Quando o Matitã era morto pela gente, ele nunca se lembrava e jogava a bola forte, mirando nossos pés ou braços. Toda vez! Dava um ódio assim. Por isso que a gente ria e fazia graça. Depois batia o sinal no intervalo e a gente voltava pra aula querendo brincar mais.

Quando foi da apresentação de poemas que os alunos iam recitar para os pais, teve uma semana de ensaio que a gente assistia a todas as séries. A minha ia recitar um poema em inglês, um assim de revolta. A gente, no final, jogava umas carteiras no chão e saía do palco bem rebelde, dava uma impressão legal. O poema da série do Matitã era em português, eu sei porque começava falando alguma coisa de camburão e navio negreiro. Era mais fácil, mas a gente queria ver se ele ia esquecer ou ficar nervoso na frente de todo mundo. O Matitã diziam ser mais burro, que pegava muita recuperação. Ele estava mais atrás no palco, ouvindo os colegas e cambaleando em minicírculos, rememorando baixinho sua parte. Quando começou a falar, foi igual a todo mundo, meio sem graça. Eu parei de prestar atenção. Foi quando todo mundo começou a rir, alguma coisa diferente. O que foi? O que foi?

- Ele falou fiofó!

Droga, eu tinha perdido. No ensaio seguinte, quando ele começou a recitar, não parei de prestar atenção, e nem meus colegas, que especulavam quando ia ser a parte do fiofó. A expectativa foi acumulando ao redor, mas eu não sabia quando, estava ficando tenso com medo de perder de novo. 

"- É preciso jogar o ferro fora."

 Agora eu tinha entendido, quando ele falava ferro fora a gente ouvia fiofó. Não achei tão parecido, mas guardei na memória a parte do poema para não perder mais nos ensaios seguintes a hora de rir.

No dia das apresentações, tinha muitos pais e mães. Fiquei tão nervoso que nem lembrei de assistir ao poema do Matitã, pra ver se iam rir. Meus pais me filmaram, nem quis assistir porque tive vergonha. Mas acho que deu tudo certo, quando jogamos as carteiras no chão e saímos imponentes, os pais bateram muita palma. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Teleton

 A primeira vez que ouvi falar em Teleton foi numa conversa dos meus pais no restaurante. Me deu vontade de ver. Achei muito curioso tudo aquilo: era um programa tipo o Faustão só que iam muitos artistas e o objetivo era arrecadar dinheiro pra uma instituição que cuidava de crianças deficientes. Teve uma vez que eu tinha feito natação com meu pai, um menino sem braço e o pai dele, tinha sido muito estranho. Eu gostei era do placarzinho na bancada que mostrava quanto o público já tinha doado. 25 milhões, era essa a meta. O número crescia muito rápido e já parecia ser muito grande, mas com certeza estava longe dos 25 milhões. Apenas com este número fixo na cabeça, aguentei mais uma meia hora e adormeci no sofá. De manhã, fui colocar no Bom dia e Companhia e qual não foi a minha surpresa ao ver que ainda estava tendo o Teleton (e era ao vivo!) Voltei à minha torcida pelo 25, ainda longe longe. Nem via mais as crianças de uniforme ao redor do palco, só contava com os olhos os números subindo sem parar. Minha mãe explicou no almoço que o programa não parava, começava sexta à noite e terminava sábado de noite. "Que nem o shabat", talvez eu tenha pensado. Fiquei feliz que ainda ia ter muito programa, mas meio preocupado quando eu voltei do banho e nem tinha um 2 na primeira casinha. Meu pai, que entendia muito dessas coisas, tranquilizou:

- "Eles deixam as doações de banco pro final."

Fiquei aliviado, apesar de não ter uma ideia clara do que era um banco. Foi então que entrou do nada o Sílvio Santos, ele eu conhecia. Chegou sem cerimônias, discreto como quem curte mais a surpresa do que os aplausos. Sílvio dominava aquele circo emocionante de doações e shows como um domador de leões, sua parcimônia me dava confiança que o 25 ia chegar. O Silvio Santos e meu pai: deixavam-me tranquilos que ia ter dinheiro. Toda hora eles falavam do 25, eu nem precisava fingir que eu só pensava nisso. Eu estava muito animado, já se aproximavam as últimas voltas e o sono nem veio. Chegou então o primeiro banco, o Itaú: 1 milhão! Logo depois, uma sequência de pancadas: Bradesco, Santander, Caixa, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões! Mas nada de chegar no 25... Só sei que um homem meio parecido com meu pai subiu no palco em nome de um banco que chamava Hipercard. Como eu nunca tinha ouvido aquela palavra, fiquei desacreditado na doação, por mais que o envelope fosse grandão. O Silvio deve ter sentido o desamparo nos meus olhos e disse: "vamos abrir devagar esse envelope, tô sentindo que vem coisa grande por aí." Uma moça alta pegou um envelope e começou a retirá-lo bem devagarzinho, de trás pra frente.

- "Olha lá, um zero... Mais um zero... mais dois zeros..."

O Sílvio falava normalmente, eu não entendi porque ele não tava tão animado, mas sei lá, continua.

- "Mais um zero... opa, mais um zero... é agora... olha lá... 5! 5 milhões!"

5 milhões! Caramba, era muito dinheiro. Passou! Passou! 25! Chuva de papel picado, várias moças altas dançando de perna de fora, Sílvio se despede, um monte de nome na TV e acabou. 

Depois da catarse que eu vivi naquela noite, nunca mais perdi um Teleton, nem que fosse só pra ver a parte do sábado à noite (até porque o resto não era tão divertido).

quinta-feira, 11 de maio de 2023

O Búfalo

Não é o do conto da Clarice. O jornal O Búfalo nunca chegou a publicar meus textos, por obra de uma editora irresponsável (tsc, tsc). De tanto reclamarem, resolvi postá-los aqui, mesmo os avisando que permaneceriam anônimos. Os primeiros três são adaptações de formatos consagrados à realidade santacruzense: um poema de Drummond, uma cena de Choque de Cultura e um miniconto de amor. O último... ah, gracejo, e só. 


1. "Drummond na aula de física"


João,
que copiou de Marcos,
que copiou de Dora,
que copiou de Laura, 
que copiou de Sofia,
que copiou de Paulo,
que tirou foto da apostila do ano passado



2. "Choque de Cultura analisa o grêmio"

(passando o VT de uma reunião do grêmio)
Rogerinho: Eu só não entendo esse monte de cadeira vazia e o pessoal sentando em cima da mesa!
Maurílio: Isso aí acontece, Rogerinho, porque quando a pessoa senta em cima da mesa, ela automaticamente ganha mais anos de maturidade, e pode falar qualquer merda que todo mundo vai achar inteligente (sorri pra câmera)
Julinho: E comé que a pessoa fica mais velha do nada, animal?!?
Maurílio: Ao sentar em cima da mesa, o aluno desenvolve escoliose rapidamente, destruindo completamente sua coluna. E, como todo mundo sabe, não tem nada mais velho do que uma boa escoliose
Renan: Issfo aí é um absurdo, ò, Rogerinho! A pessoa, vendo que o velho tem o DIREITO  de poder falar qualquer coisa sem ser questionado, tenta virar velho também!
Rogerinho: Ninguém respeita mais a conquista do velho, Renan!


3. "Amor à primeira vista: um miniconto de amor santacruzense"

Foi no primeiro cair das folhas do outono. Trocaram olhares amantes, fugidios, encontro eterno de um piscar envergonhado. Souberam de imediato que aquele instante fora mágico, o princípio de um sonho que os bateria na porta todas as noites. Sob as estrelas que brilhavam no céu de veludo, as duas almas pincelavam um futuro em comum: futuro áureo, selado por mãos dadas e palavras apaixonadas. Mas, para que se chegasse ao futuro, haveria de ter um meio... um ato de coragem dos heróis! Foi ele quem deu o primeiro passo em direção ao amor; mesmo com o rubor das paixões, decidiu reencontrar o ímã de seu olhar. Ao avistá-la, o coração entrou em disparada. Partiu às duras penas, mas irrefreável como um corcel em fuga. As batidas na boca e o paraíso nos olhos. Com a coragem que restara, disse afinal: "Que eletiva cê faz?"


4. Peça Natalina - 1 Ato 

(Belém, Israel. Dia 25/12 do ano 0. Noite, manjedoura)

-Jesus nasceu!
-Deus é pai.

Fecham as cortinas. 

Chutar a bola

Vem sem anúncio. Você está observando um mundo ao seu redor, cores e sons, quando, virando bruscamente seu pescoço, surge aquela redonda ofe...