Abaixo, alguns dos textos escritos durante o curso de escrita livre, ministrado pelo professor Alejandro, no 2o semestre de 2018. Às propostas!
Proposta 1: Crônica Instrutiva - A partir do modelo de uma crônica em que se ensinava a chorar, o aluno deveria redigir uma crônica em que se ensinava uma atividade banal ou naturalmente realizada no cotidiano.
Instruções
básicas para uma passagem segura pelo elevador
Etapa 1: Os métodos de conduta ao se adentrar em um
elevador variam de acordo com a ordem de chegada no mesmo.
(a): caso o leitor seja o indivíduo que entra por último
no cubículo, quando já há outro(s) lá, é dele de quem deve se tomar a
iniciativa da fala. Apresentam mais chance de sucesso, de acordo com pesquisas
científicas realizadas nos últimos anos, as seguintes frases:
“Bom dia/tarde/noite”
(84%)
“Opa” (89%)
“Oi” (92%)
Ditos como “Oi, tudo bem?” (72%) apresentam alto risco de
fracasso, pois, dependendo da ingenuidade egocêntrica do(s) interlocutor(es),
uma conversa desconfortável pode se prolongar pelos andares seguintes.
(b): caso o leitor seja o indivíduo que se situava antes
no cubículo anteriormente à entrada de outro(s), deve se atentar à iniciativa
tomada em sua direção para que consiga se portar adequadamente perante qualquer
uma. As frases de maior sucesso apresentadas anteriormente são aquelas que podem
concluir tranquilamente a etapa 1 repetindo, com exatidão, a mesma frase que
lhe foi dita. Mimetizar, além da rapidez, a falta de entusiasmo no tom de voz é
essencial.
Agora, se lhe for dirigida uma frase com menor grau de
sucesso, é de extrema importância que tenha certo repertório semântico e comportamental.
Peguemos a frase “Oi, tudo bem?” (72%) como exemplo. A resposta-pegadinha “Tudo
e você” (57%) apresenta maior risco de erro justamente devido à amplitude de
possibilidades. Repare, porém, que a taxa ainda se mantém acima dos 50%, uma
vez que, em mais de 50% dos casos, não há o interesse real em saber a qualidade
da situação atual do interlocutor.
Resposta ideal: “Tudo”(84%)
Etapa 2: Concluída a etapa 1, todos os indivíduos dentro
do elevador passam a ter responsabilidade equivalente para a boa passagem pelo
elevador. Nesta etapa, deve-se atentar a possíveis variantes, dentre as quais
as mais comuns são cachorros, bebês e crianças. Espera-se que essas coisas não
emitam som. Mesmo assim, é perigoso deixar com que tais elementos se tornem
atrativos da atenção, ou, como se denomina na comunidade especializada, “ímãs
visuais”. Em casos de fortes ímãs
visuais, o celular pode ser de suma importância. Porém, deve-se ter extremo
cuidado ao se fazer uso desse recurso externo. A principal precaução é JAMAIS
entrar no WhatsApp. Não é necessário descrever a magnitude do transtorno de se
tocar, acidentalmente, um áudio, uma corrente ou, em pior dos casos, o
catastrófico “gemidão do zap”(16%). Para evitar tais cenários, garanta-se pela
leitura de e-mails antigos. Descontos de imóveis e avisos de reunião de pais
são extremamente eficazes.
Etapa 3: A saída do elevador é pouco suscetível a grandes
erros, uma vez que a urgência nesse momento inibe a prolongação da fala. Não
obstrua as saídas e mantenha o contato visual adequado, isto é, com o piso do
elevador. Bocejos e coceiras só são seguros no cerramento total das portas,
enquanto fungadas podem ser executadas antes.
Proposta 2: Proposta Livre: Os alunos, em dupla, fariam suas próprias propostas e escreveriam a partir dela. Deco e eu fizemos uma "proposta arraste", em que um deveria zombar do outro.
Se tem alguma palavra que melhor descreve essa pessoa, eu
não sei, porque foi ele quem sempre teve um domínio absurdo de todas as
palavras. Com elas, faz trocadilhos, escreve textos NADA problemáticos, e,
principalmente, arrasta pessoas muito próximas (literalmente próximas). Não se
espante se você ouvir, em uma manifestação na frente do Sinpro, alguém dizendo
que “professores são vagabundos” e que “aula é na sala”. Será ele, provavelmente
com um cachecol e um sol de 30 graus batendo em seu pescoço.
Pra quem
ainda não conhece o cara de quem eu estou falando, é melhor eu descrevê-lo: ele
tem cabelos castanhos e longos, mais ou menos até os ombros, usa óculos, vai
muito bem em exatas e é um dos melhores jogadores de xadrez do Santa Cruz. Sim,
é quem você está pensando: Gabriel Cypri.
Mentira,
é claro que tô falando do André Coelho. Até porque é meio difícil não fazer
isso quando a cada dia ele vem te contar sobre uma nova pessoa que quer pegá-lo
ou tem crush nele. (É uma pena que poucos alunos vão viajar com a Cláudia esse
ano, mas de fato não é mais o México a preferência absoluta do colegial).
Falando
da Cláudia, você sabia que ela sabe o nome dele? Ah, já sabia? Desculpa, mas é
porque eu também adquiri essa mania de falar isso várias vezes pra todo
mundo...
Já que
esse texto é sobre o Deco e será lido pela Bianca ou o Alejandro, é melhor eu
falar sobre uns temas controversos de uma forma bem engraçada, só pra não
perder a tradição. Hm, deixa eu ver... Sexo com ninfas já foi, maneiras de se
matar já foi... Que tal aborto? Isso, aborto! Genial, vai render no mínimo uma
meia hora de conversa com a Bianca...
Bom, diferentemente do André arrastando
alguém, eu sei quando é a hora de parar, e acho que essa hora chegou. André, se
você estiver lendo isso, saiba que tudo o que disse foi só porque eu te acho
espetacular e, por isso, presto atenção em cada detalhe seu. Eu CLARAMENTE te
amo.
Beijos (melhores que o da Lili, lor)
Proposta 3: Memória de Aprendizagem - um texto de gênero livre em que a aquisição de um aprendizado estaria presente
Sabão
em pó
Quando via que meu sabão estava fino e pequeno, ia correndo
em direção a minha mãe, pedindo que comprasse outro imediatamente.
Importunava-a todas as horas, minutos, segundos até que o sabão novo estivesse
nas minhas mãos.
Então, depois de tanta pressão, ele chegava lá. Aquele barra
robusta, enorme, imponente. Um formato de tamanha formosura, nem cabia direito
nas minhas mãos ansiosas.
Nos primeiros banhos, me divertia com meu sabão novo.
Esfregava, apertava, soprava... Cada centímetro quadrado da minha pele abraçado
por um colchão de espuma. Tinha dias que até chamava meu irmão pro chuveiro,
porque não queria que ele tomasse banho com um sabão menor que o meu.
Depois de uns dias, já não se lia mais o escrito da marca. A
superfície também já não era mais tão lisa, algumas rugosidade, um pelo
esquisito colado lá... Mas tudo bem, ele ainda era grande e eterno, fazia bolha
que nem louco.
Não sei o porquê, mas me vi, às 10 horas da noite de uma
terça, vendo um filme na sala com meu pai. Minha hora de dormir já tinha
passado, mas ele, tão centrado, nem me mandou pra cama. Muito menos me impediu
ficar lá com ele.
O que meu pai via se chamava O Curioso Caso de Benjamin
Button. E era curioso mesmo, coisa de um cara que ficava velho e depois novo, e
não o contrário, como meus pais e meu irmão.
E de tão curioso, fiquei lá fixo, hipnotizado, como meu pai.
Era estranho, porque em todos os filmes tinha vontade de ficar abraçado com
ele, perguntando e conversando. Mas aquela noite, não. Estava imóvel.
E perplexo, isso perplexo! Que coisa triste esse homem,
quando velho todos eram velhos e morriam, quando era adulto, só tinham alguns
adultos, e quando era novo já estavam todos velhos e morriam.
Ele e ela no final. Ele, uma criança se atrofiando. Ela, uma
velha caquética na espera do abandono. Ele morre. Ela vai morrer. Chega a
tempestade, a água toma as cadeiras do hospital, as fotos, as cartas, e o
relógio, que não para de rodar, e rodar, e rodar...
Papai! Papai! Eu não quero que você morra! Papai! Papai!
Papai! Eu não quero morrer! Eu não quero morrer! Papai!...
Quando via que meu sabão
estava fino e pequeno, ia correndo em direção a minha mãe, pedindo que
comprasse outro imediatamente. Importunava-a todas as horas, minutos, segundos
em que o sabão novo não estava nas minhas mãos.