Vem sem anúncio. Você está observando um mundo ao seu redor, cores e sons, quando, virando bruscamente seu pescoço, surge aquela redonda oferta vindo em sua direção: uma bola rolando.
Geralmente há atrás dela uma dupla, um trio, um grupo de outras crianças, algumas com pais ou irmãos mais velhos. Assistem com pouca preocupação ao caminho incerto da bola, pois sabem que a esfera, no Brasil, é (literal e metaforicamente) a aliança mais rápida e eficaz entre dois estranhos. Tão breve ela foi, ela voltará. Pode ser com algum toque de classe, alguma graça de quem exprime num instante o sonho reprimido de ser jogador de futebol, ou o contrário, o desembaraço motor da dona de casa que vê na bola a vilã mítica de sua paz, e por isso, nunca ousou mexer com seus encantos.
Você, um menino já em forma, sente a cada volta completa o ímpeto incontrolável de chutar aquela bola o mais forte possível. Toda a raiva sangrenta de seus ancestrais, desde o hominídeo que primeiro devorou o mamute, todos vão se apoderando de si à medida que a bola se aproxima da sua chuteira nova.
Você já venceu a gravidade, já passou pelos primeiros chutes, vencidos com o emprego de toda a força que tem seu corpinho e aos gritos do papai - aquele chute já não te empurraria para trás. Ainda mais porque se aproxima uma bola de leite, uma bola de queimada, uma bola de vôlei, quem sabe... Já não há calculo necessário para dimensionar a força com que a bola vai sair do seu pé.
O chute é inevitável. Aguda-se a potência. Prenuncia-se a explosão, a virilidade, a violência, o tesão. A raiva do mundo concentrada em quatro terços de pi raio ao cubo. A raiva de ser, a raiva de querer-ser, a raiva de não ser.
Não. Você não pode chutar aquela bola. Ela pode machucar alguém. Ela pode cair naquele barranco lá. Ela pode furar. Ela pode não ser de chutar. E, afinal, ela não é sua. Você não trouxe sua bola porque não quis.
Você gentilmente recolhe a bola alheia, encurvando-se para não dominá-la com os pés. Você arremesa-a parcimoniosamente ao menino mais novo de olhos ansiosos. Ela pinga, uma, duas vezes, e é agarrada pelas mãos miúdas. "Agradece, filho". "Brigado"
Somado da vida miserável às frustrações e burocracias, subitamente no teto preto do seu olho raivoso irrompe voraz o arrependimento: você deveria ter chutado aquela bola
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