A primeira vez que ouvi falar em Teleton foi numa conversa dos meus pais no restaurante. Me deu vontade de ver. Achei muito curioso tudo aquilo: era um programa tipo o Faustão só que iam muitos artistas e o objetivo era arrecadar dinheiro pra uma instituição que cuidava de crianças deficientes. Teve uma vez que eu tinha feito natação com meu pai, um menino sem braço e o pai dele, tinha sido muito estranho. Eu gostei era do placarzinho na bancada que mostrava quanto o público já tinha doado. 25 milhões, era essa a meta. O número crescia muito rápido e já parecia ser muito grande, mas com certeza estava longe dos 25 milhões. Apenas com este número fixo na cabeça, aguentei mais uma meia hora e adormeci no sofá. De manhã, fui colocar no Bom dia e Companhia e qual não foi a minha surpresa ao ver que ainda estava tendo o Teleton (e era ao vivo!) Voltei à minha torcida pelo 25, ainda longe longe. Nem via mais as crianças de uniforme ao redor do palco, só contava com os olhos os números subindo sem parar. Minha mãe explicou no almoço que o programa não parava, começava sexta à noite e terminava sábado de noite. "Que nem o shabat", talvez eu tenha pensado. Fiquei feliz que ainda ia ter muito programa, mas meio preocupado quando eu voltei do banho e nem tinha um 2 na primeira casinha. Meu pai, que entendia muito dessas coisas, tranquilizou:
- "Eles deixam as doações de banco pro final."
Fiquei aliviado, apesar de não ter uma ideia clara do que era um banco. Foi então que entrou do nada o Sílvio Santos, ele eu conhecia. Chegou sem cerimônias, discreto como quem curte mais a surpresa do que os aplausos. Sílvio dominava aquele circo emocionante de doações e shows como um domador de leões, sua parcimônia me dava confiança que o 25 ia chegar. O Silvio Santos e meu pai: deixavam-me tranquilos que ia ter dinheiro. Toda hora eles falavam do 25, eu nem precisava fingir que eu só pensava nisso. Eu estava muito animado, já se aproximavam as últimas voltas e o sono nem veio. Chegou então o primeiro banco, o Itaú: 1 milhão! Logo depois, uma sequência de pancadas: Bradesco, Santander, Caixa, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões! Mas nada de chegar no 25... Só sei que um homem meio parecido com meu pai subiu no palco em nome de um banco que chamava Hipercard. Como eu nunca tinha ouvido aquela palavra, fiquei desacreditado na doação, por mais que o envelope fosse grandão. O Silvio deve ter sentido o desamparo nos meus olhos e disse: "vamos abrir devagar esse envelope, tô sentindo que vem coisa grande por aí." Uma moça alta pegou um envelope e começou a retirá-lo bem devagarzinho, de trás pra frente.
- "Olha lá, um zero... Mais um zero... mais dois zeros..."
O Sílvio falava normalmente, eu não entendi porque ele não tava tão animado, mas sei lá, continua.
- "Mais um zero... opa, mais um zero... é agora... olha lá... 5! 5 milhões!"
5 milhões! Caramba, era muito dinheiro. Passou! Passou! 25! Chuva de papel picado, várias moças altas dançando de perna de fora, Sílvio se despede, um monte de nome na TV e acabou.
Depois da catarse que eu vivi naquela noite, nunca mais perdi um Teleton, nem que fosse só pra ver a parte do sábado à noite (até porque o resto não era tão divertido).
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