2013
Era a primeira vez que pisava numa escola diferente na minha vida. Pelo menos era por um dia só, ia fazer o teste de inglês e ir embora. Tinha gente da minha idade, gente mais velha, gente sozinha, gente grande. Fiz a prova escrita na sala e esperei comendo o lanche no lado de dentro, como meu pai me recomendara.
Me chamaram pra prova oral, deu vergonha de falarem meu sobrenome alto. Quando entrei tinha uma menina bonita ao lado. Bonita, minha idade, era morena e mexia no celular. Barulho da porta, celular no bolso. Conversamos sobre o aquecimento global, ela falava inglês bem, eu esqueci como falava fábrica - factory, factory, factory! Nós, a menina bonita e eu, falando em inglês naquela escola colorida da Zona Sul, aos 13 anos, sobre aquecimento global. Warm.
As avaliadoras nos liberaram e abriram a porta. Estávamos no segundo, os dois teriam que ir pra saída no térreo... O que eu falo? Não vou falar. Vou ver se ela também gostou de mim. Se não falar nada, tá nervosa, como eu. E se puxar muito papo, é também porque gostou de mim. Nós dois em cima, thank you, escada caracol, caracol.
- "Acho que foi de boa, né?" - Ela disse.
- "Sim, sim." - Concordei
- "Tchau!"
Ela desceu as escadas à frente. Diminuí meus passos para descer atrás, fingindo que tomava cuidado para não tropeçar. Enquanto a via sair sozinha, seu braço puxando o celular no bolso, meu pai me abraçou e perguntou se eu tinha ido bem:
- "Sim" - querendo chutar sua canela e chorar.
2022
Não imaginava que com mais de 20 anos me depararia num verdade e desafio. Depois do karaokê, alguns de nós fomos para a casa da amiga da minha amiga. Tinha algo de Laranja Mecânica, se os alvos da gangue de Alexander fossem os nouveaux riches do Morumbi. Tão logo se quebrou o gelo, as línguas sanfonavam para fora das bocas e as peças de roupas tombavam vorazes. Mexia um pouco no celular pra não parecer afoito em entrar nos desafios, de canto de olho foi então que notei: deveria se beijar por no máximo 20 segundos, mas os casais tinham dificuldade de desgrudar pele com pele e estendiam por uns 30, 40 segundos.
Fui beijar a minha amiga, ela estava de olhos fechados, o que me pareceu um bom sinal. O funk na tevê se misturava com a voz feminina, que proclamava: treze, catorze, quinze... Calculei: se pararmos nos 20, ela não quer deixar claro que gostou. Se formos até os 30, 40, é também porque gostou, oras... Vinte um, vinte dois, paramos. Uma piada qualquer e alguém bramou:
- Próximo, próximo.
Quando já eram umas 6 da manhã a irritação dos meus pais desbancou a expectativa por qualquer experiência atestadamente excitante. O vento anunciava baixinho na janela que estava pronto para secar o tesão derretido no tapete. Chamei um Uber, dei um selinho em minha amiga e desci devagar em direção à porta, desviando do casal de amigos que no degrau escuro já não pensava em regras.
- Boa noite, amigo.
- Opa, bom dia já!
- Ah, é, verdade... É que tá frio ainda né?